Presidente da Câmara diz que mecanismo não pode ser recurso eleitoral, mas avaliação de contas de Dilma e de outros presidentes "que pode custar o mandato da petista" começa a ser feita no mês que vem. Opositores criticam autoritarismo e suspeição do peemedebista
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ),
afirmou nesta quinta-feira (16/7) que pediu e vai receber “nos próximos
30 dias” um parecer jurídico sobre pedido de impeachment da presidente
Dilma Rousseff. A solicitação foi feita por militantes do Movimento
Brasil Livre (MBL). De acordo com ele, já foram negados “três ou quatro”
pedidos de cassação do mandato da petista. Dilma vive a maior crise de
seu governo, agravada pela baixa popularidade, pela crise econômica e
pelos efeitos da Operação Lava-Jato, que apura corrupção de empresários e
políticos na Petrobras.
Apesar disso, Cunha disse que o impeachment não pode ser usado como
“recurso eleitoral” e que é preciso respeitar o que diz a lei. Um dos
argumentos dos defensores da cassação do mandato são manobras contábeis
questionadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU), as chamadas
“pedaladas fiscais” que, para a oposição, foram um ato de improbidade
administrativa de Dilma.
Em café com os jornalistas nesta manhã, Cunha disse que a
preocupação não deve ser com o TCU – que “deveria” ter uma postura
técnica -, mas com o Congresso. Isso porque a avaliação final será
política, dos parlamentares. Ele disse que cortes de contas já decidiram
rejeitar ou aprovar contas de chefe do Executivo, mas os legislativos
locais tomaram decisão diferente.
Ao mesmo tempo, Cunha marcou para agosto a avaliação das contas dos
últimos presidentes, iniciando-se pelos que exerceram mandato nos anos
90 até chegar a Dilma. Em tese, uma rejeição de contas pelo Congresso
pode custar o mandato da presidente da República.
Para o deputado, o período de recesso não deve ser visto como
alívio para a Palácio do Planalto, que tem tido muitas derrotas no
plenário da Câmara, graças a uma postura independente de Cunha e boa
parte da base aliada. Segundo ele, os parlamentares vão voltar às suas
bases eleitorais e observar uma realidade ruim ao conversar com seus
eleitores. “Os deputados tendem a voltar mais duros.”
Apressar mudanças
Num balanço de seus primeiros meses de gestão, Cunha elogiou a
quantidade de projetos aprovados e a qualidade deles, ao dar mais
independência à Câmara em relação ao Executivo. A pauta, contrária ao
Planalto, incluiu a aprovação da terceirização, a redução da maioridade
penal para 16 anos e a confirmação do financiamento empresarial das
campanhas.
Cunha disse que o plenário da Câmara “vai votar com certeza” neste
segundo semestre projeto de resolução que apressa a votação de mudanças
na Constituição, ao eliminar as comissões especiais. A proposta foi
feita pelo próprio presidente da Casa em 2009 e agora deve sair do papel
rápido nas palavras do relator, Esperidião Amin (PP-SC). O deputado
criticou seus opositores, que dizem que este projeto é mais uma medida
da “Cunha-instituinte” para viabilizar mudanças na Constituição a toque
de caixa. Segundo o presidente, as votações são feitas com os votos de
308 deputados, como preveem as regras da Casa.
“Eu não sou dono da pauta”, afirmou Cunha. “Será que eu sou ditador
e todo mundo concorda com a minha ditadura? Isso é choro de perdedor.”
Sob suspeita
Horas após o café com os jornalistas, 17 deputados dos partidos
PSB, PDT, PPS, PSOL e PROS divulgaram um “contrabalanço”. Para eles, a
gestão de Cunha mostrou “um semestre de retrocessos”. “Nunca se votou
tão atropeladamente, nunca a Câmara esteve tão sob suspeita, nunca houve
uma gestão tão autoritária”, afirmam eles num documento de três páginas
que lista 15 decisões e posturas que contrariam os desejos da sociedade
na visão do grupo.
“Eduardo Cunha omite o desserviço prestado ao país por sua agenda
autoritária e conservadora”, dizem os parlamentares. Eles lembram que
Cunha é um dos cerca de 50 políticos investigados no Supremo Tribunal
Federal suspeitos de terem recebido propina fruto de desvios na
Petrobras.
Juiz político
Cunha elogiou a proposta aprovada ontem no Senado, que obriga
magistrados a membros do Ministério Público a deixarem seus cargos dois
anos antes de concorrerem às eleições. “Muitos estão fazendo política”,
disse ele, que não quis informar os nomes dos juízes e procuradores
'políticos'. Cunha trocou farpas com o procurador geral da República,
Rodrigo Janot, dizendo que ele o investiga por questões “pessoais”. Como
suas declarações sobre a Lava-Jato estavam sendo usadas nos processos
no STF, seu advogado pediu que ele evitasse comentar o caso.

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